A grande cadeia do Ser
Fonte: A grande cadeia do Ser, de Ken Wilber
Tradução de Ari Raynsford

A tradicional "Grande Cadeia do Ser" é normalmente apresentada como: matéria, corpo, mente, alma, e espírito.

No Vedanta, por exemplo, estes são, respectivamente, os 5 invólucros ou níveis do Espírito:

annamayakosha (o invólucro ou nível do alimento físico),
pranamayakosha (o nível do élan vital),
manomayakosha (o nível da mente),
vijnanamayakosha (o nível da mente superior ou alma) e
anandamayakosha (o nível da bem-aventurança transcendental ou espírito causal.


...

Esta Grande Cadeia do Ser de cinco níveis pode ser representada esquematicamente como na figura 1. Embora tenhamos de ser muito cuidadosos com comparações interculturais, esquemas interpretativos semelhantes a esta Grande Cadeia, ou "Grande Ninho do Ser", podem ser encontrados na maioria das tradições de sabedoria do mundo "pré-moderno", como apresentado nas figuras 2 e 3, que são diagramas usados por Huston Smith para indicar as semelhanças gerais (ou imagens familiares) entre estas tradições.


               Figura 1. A tradicional Grande Cadeia do Ser

Com referência à figura 1, note que a Grande Cadeia, como concebida por seus proponentes(de Plotino a Aurobindo), é realmente mais um Grande Ninho - ou o que é freqüentemente chamado de uma "holarquia" - porque cada nível sênior vai além de seus níveis juniores, mas os envolve (ou os "aninha") - o que Plotino chamou "um desenvolvimento que é envolvimento."

Porém, cada nível mais elevado também transcende radicalmente seus juniores e não pode nem ser reduzido a eles, nem explicados por eles.

Isto é indicado na figura 1 como (A), (A + B), (A + B + C), e assim por diante, significando que cada nível sênior contém elementos ou qualidades que são emergentes e irredutíveis.

Por exemplo, quando a vida (A + B) emerge da matéria (A), ela contém certas qualidades
(tais como reprodução sexual, emoções interiores, autopoiese, élan vital, etc. - todas representadas por "B")
que não podem ser atribuídas estritamente às condições materiais de "A."

Do mesmo modo, quando a mente ("A + B + C") emerge da vida, ela contém características emergentes
("C") que não podem ser reduzidas, ou explicadas, somente pela vida e pela matéria.

Quando a alma ("A + B + C + D") emerge, transcende a mente, a vida e o corpo.

Assim, a evolução, é este "desdobramento" do Espírito,
da matéria para o corpo, para a mente, para a alma, para o Espírito em si,
ou a realização do Espírito absoluto que era a Meta e a Essência da sequência inteira.


Mas, segundo as tradições, este processo completo de evolução ou "desdobramento" nunca poderia ter ocorrido sem um processo prévio de involução ou "dobramento."

Não só não se pode explicar o mais alto em termos do mais baixo, como também o mais alto não emerge, de fato, do mais baixo; mas o contrário é verdadeiro, de acordo com as tradições. Isto é, as dimensões ou níveis mais baixos são realmente sedimentos ou depósitos das dimensões mais altas, e descobrem seu significado por causa das dimensões mais altas, das quais são uma versão diluída ou de nível inferior.

Involução (ou emanação)
Este processo de sedimentação é chamado de "involução" ou "emanação." Segundo as tradições, antes que a evolução ou desdobramento do Espírito possa acontecer, a involução ou o dobramento do Espírito deve ocorrer: o mais alto sucessivamente decai para o mais baixo.

Deste modo, os níveis mais altos parecem emergir dos níveis mais baixos durante a evolução - por exemplo, a vida parece emergir da matéria - porque, e só porque, ambas foram primeiramente lá sedimentadas pela involução.

Você não pode conseguir o mais alto a partir do mais baixo a menos que o mais alto já esteja lá, em potencial - dormindo, por assim dizer - esperando para emergir. O "milagre da emergência" é simplesmente o jogo criativo do Espírito nos campos de sua própria manifestação.

Portanto, para as tradições, o grande jogo cósmico começa quando o Espírito se exterioriza, por esporte e divertimento (lila, kenosis), para criar um universo manifesto. O Espírito se "perde", "esquece" de si próprio, assume uma fachada mágica de diversidade (maya), a fim de criar uma grande brincadeira de esconder consigo mesmo.

Inicialmente, o Espírito se projeta para criar a alma, a qual é um reflexo diluído e um degrau abaixo do Espírito; a alma, então, desce para a mente, uma reflexo ainda mais pálido da glória radiante do Espírito; em seguida, a mente desce para a vida, e a vida desce para a matéria, que é a forma mais densa, mais baixa, menos consciente do Espírito.

Poderíamos representar isto como:

O Espírito-como-espírito desce para o Espírito-como-alma,
que desce para o Espírito-como-mente,
que desce para o Espírito-como-corpo,
que desce para o Espírito-como-matéria.

Estes níveis do Grande Ninho são todos formas do Espírito, mas essas formas tornam-se cada vez menos conscientes, cada vez menos cientes de sua Origem e Qüididade, cada vez menos sensíveis à sua Essência eterna, embora nada mais sejam do que o Espírito-em-jogo.

Se representarmos os principais estágios emergentes da evolução como (A), (A + B), (A + B + C), e assim por diante - onde os sinais de adição significam que algo está emergindo ou sendo adicionado à manifestação - então podemos representar a involução como o prévio processo de subtração: o Espírito começa íntegro e completo, com todas as manifestações contidas potencialmente em si mesmo, que podemos representar em colchetes: [A + B + C + D + E]. O Espírito dá o primeiro passo na manifestação - e começa a perder-se na manifestação - desprendendo-se da natureza espiritual pura e assumindo uma forma manifesta, finita, limitada - isto é, a alma [A + B + C + D].

A alma agora esqueceu "E," ou sua identidade radical com e como Espírito; com a confusão e ansiedade resultantes, a alma foge deste terror descendo para a mente [A + B + C], que esqueceu "D," seu esplendor de alma; e a mente foge para a vida, esquecendo "C," ou sua inteligência; e, finalmente, a vida perde sua vitalidade vegetativa "B" e surge como a matéria "A", insenciente, inanimada, - neste ponto, algo como o Big Bang acontece, quando então a matéria explode na existência concreta e parece existir em todo o mundo manifesto apenas matéria insenciente, inanimada, morta.

Mas, curiosamente, esta matéria é ativa, não é mesmo? Não parece ficar deitada, aproveitando o seguro- desemprego, assistindo TV. Incrivelmente, esta matéria começa a dar-se corda: "ordem a partir do caos" é como a física da complexidade chama isto - ou estruturas dissipativas, ou auto-organização, ou transformação dinâmica. Mas os tradicionalistas foram mais diretos: "Deus não permanece petrificado e morto; as pedras clamam e elevam-se na direção do Espírito," como afirmou Hegel.

Em outras palavras, de acordo com as tradições, uma vez que a involução aconteceu, então a evolução começa ou pode começar, movendo-se de (A) para (A + B), para (A + B + C), e assim por diante, com cada principal passo emergente nada mais sendo do que um desdobramento ou lembrança das dimensões mais elevadas que foram secretamente dobradas ou sedimentadas nas mais baixas durante a involução.

Aquilo que foi desmembrado, fragmentado e esquecido na involução é relembrado, reunido, inteirado e percebido durante a evolução. Daí a doutrina da anamnese, ou "recordação" platônica e vedântica, tão comum nas tradições: se a involução é um esquecimento de quem você é, a evolução é uma recordação de quem e o que você é - tat tvam asi: você é Isto. Satori, metanóia, moksha, e wu são alguns dos nomes clássicos para esta realização.

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