Deus abençoa
J.C. Cavalcanti - 14/06/06

Ela está sempre postada à entrada da padaria. Quando o freguês entra para comprar algo, ela o olha bem nos olhos e diz invariavelmente:

"Moço, na saída me dá o troco!" E eu, invariavelmente, fico bravo com a cobrança antecipada. Pego meu pãozinho e saio direto, com troco e tudo. Ao passar por ela, ainda ouço:

"Deus abençoa!" Fico com mais raiva ainda, e vou para o estacionamento. Quanta coisa me vem à cabeça! Sei muito bem que as classes dominantes de nosso país, através da Princesa Isabel, só consentiram com a "libertação" dos negros quando o escravagismo já era inútil como sistema econômico; os pobres homens ficaram foi sem trabalho, e sem nada, abandonados como párias na sociedade.

E, de lá para cá, quantos milhões deles levam uma vida miserável, cheia de desprezo e condenação. "Meu Deus, e eu não lhe dei nada", pensei arrependido, "e ainda fiquei revoltado, quando ela é que devia estar revoltada!".

Como lidar com isso? Conheço quem sempre dê a esmola - já anda com um conjunto de moedas para essa finalidade - para aliviar-se do mal estar de ter algo, enquanto o pedinte nada tem, e fica exibindo suas chagas em troca de esmolas. Então ele dá realmente algo, sempre e automaticamente. É a melhor solução? Tudo tem o lado bom e o lado mau; é só procurar que as argumentações vêm aos montes.

Mas não é disso que quero falar. Na última vez que fui na padaria, já era noitinha, entrei e não tinha ninguém pedindo, nem cobrando nada. Fiquei aliviado. Entrei e comprei meus pãezinhos. Ao sair, defrontei-me, sentadinho bem no canto da porta, com um negrinho de uns dois anos, mal e mal segurando uma cuia contendo umas poucas moedas!

Isso me impactou demais. Foi como um punhal no meu coração.

Olhei, mas não vi a mãe. Tocado, peguei o troco e coloquei na cuia, dizendo ao Menino: "pega, corintianinho". Ele me olhou por um instante, curioso, com dois olhos bonitos e luminosos, depois olhou distraidamente para os lados, com a cuia caindo das mãos. Aí apareceu a mãe, e ao lado dela um mulato magro e alto, ambos sorridentes, não sei por que.

E a mãe disse:

"Fala Deus abençoa pro moço, meu filho!"