Os sete vultos
J.C. Cavalcanti - 07/08/06 atualizado em 09/10/17

Recebi um email contendo uma seqüência de slides muito interessante, chamada "Os sete vultos". A história é a seguinte:

Um homem está sentado num banco, num dia ensolarado, de céu azul, em um gramado verde e florido, frente a um lindo lago... de repente, ele recebe a visita de sete vultos estranhos, com os rostos cobertos por capuzes, que se declaram "moradores do futuro". Cada um deles se apresenta e faz  um vaticínio sombrio: um é a Fome, que declara sua intenção de pegá-lo mais tarde, outro é a Solidão, outros são a Melancolia, o Desemprego, a Velhice, etc., todos ameaçando atormentar o pobre homem nas curvas do futuro.

Este, há pouco relaxado na paisagem idílica, põe-se a tremer. Mas, respirando fundo, pouco a pouco foi se refazendo, e, como num passe de mágica, ele pôde ver os rostos dos 7 vultos: eram exatamente iguais ao dele!.

Então ele diz, vigorosamente:

"Parem! Vocês são ladrões de paz! São assaltantes de mentes distraídas! Vocês não moram no futuro! Vocês são EU mesmo! Vocês são meus pensamentos! Moram na minha cabeça, mas nela sou EU que mando!"

Em seguida, ele reage aos prognósticos assustadores de suas visitas indesejadas, mostrando, para cada situação descrita pelos vultos, outra maneira de ver e lidar com as coisas, mais otimista e esperançosa em cada uma delas. As horrendas figuras então se transmutam, mudando suas pesadas expressões e se reapresentando como entidades opostas às primeiras, com a Melancolia virando Alegria, a Solidão virando companhia e acolhimento, etc, e assim termina a seqüência de slides.

Algumas características dessa mensagem, bastante sutis, ficam subentendidas e precisam ser mais conscientizadas. Vejamos:

1) Há um eu nos processos mentais do personagem da história, identificado, no primeiro momento, com os seus pensamentos, pois ele declara: "Vocês são Eu mesmo! Vocês são meus pensamentos!" . Logo, eu = "meus pensamentos".

Mas, logo adiante, ele faz outra declaração, bastante diferente: "na minha cabeça sou eu que mando!"

Diferente, pois, nesse caso, esse outro eu está em posição hierarquicamente superior aos pensamentos, e portanto existindo independente deles, podendo atuar sobre os mesmos, através da vontade, isto é, de uma firme determinação, seja recusando alguns, ou afirmando outros.

2) Nossos fantasmas seriam os pensamentos negativos, que no entanto também moram em nossa cabeça e são filhos legítimos da experiência; entretanto achamos que devem ser banidos da mente e substituídos por outros mais agradáveis, e por imagens amenas e aconchegantes.

Essa tarefa cabe ao eu assim concebido, devendo ele selecionar os pensamentos que pensa, assim como as emoções que sente. Portanto, fica também subentendido que essa entidade é responsável pela produção de pensamentos, ou ao menos pela seleção e controle dos mesmos, como uma espécie de Censor interno.

Ao assumir a existência do Censor, somos levados a crer que este identifica-se automaticamente com o Bem (representado pelos "bons" pensamentos, que nos trazem bem-estar) em contraste com o Mal (os "maus" pensamentos e sentimentos, sempre tentando nos assombrar ou corromper).

Assim, a psique humana, tendo um EU-Censor auto-identificado com o Bem e reprimindo continuamente o Mal, torna-se um campo de batalha psicológico baseado na separação (já que o eu é exterior aos pensamentos) e na cisão interior, com o Bem e o Mal (que são conceitos, portanto pensamentos) eternamente em luta.

Na prática, isso representa um esforço psicológico constante, pois implica a necessidade de erradicar os pensamentos dolorosos, ou negativos, em prol daqueles que nos trazem conforto e bem-estar; pois, antes de executar a sentença de "desterro" dos pensamentos indesejados, é preciso julgá-los e condená-los.  O juiz encarregado dessas etapas seria o próprio eu-Censor, que é também o executor da sentença — o que, claramente, alimenta o inconsciente, pois o "desterro" de pensamentos e lembranças dolorosas significa inconsciência dos mesmos.

Esse milenar modelo psicológico da mente humana é extremamente doloroso. O eu vive em constante esforço e luta. Ele precisa de salvação! Precisa ser salvo de si mesmo!

Não por acaso, essa concepção tem produzido uma incalculável quantidade de seitas, livros e programas e organizações de auto-ajuda. Por exemplo, utiliza-se a técnica de repetição de pensamentos positivos, verbal ou silenciosamente, para afugentar a tristeza e o desânimo, e trazer felicidade, ou, pelo menos, livrar-nos dos tormentos nossos de cada dia.

Escapa-nos que o eu-Censor encarregado dessas tarefas, ele próprio, sempre surge com o pensamento — e onde estaria, na ausência deste? Portanto, o que existe, de fato, é o desejo de estar satisfeito, sem qualquer perturbação. Esse desejo se mostra em mil formas e todas elas exigem um agente para lutar por sua satisfação.

Qual seria a origem desse fenômeno que atinge a todos os seres humanos em todas as épocas?

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Como surge a consciência de ego
Fonte: O mal-estar na Civilização (de Freud)

Na teoria psicanalítica, a primeira consciência que surge é a do superego, isto é das probições e limites impostos pelos pais ao bebê. Este, sob inteiro domínio dos processos inconscientes pelos quais a vida se expressa (id), é governado pelo princípio do prazer, do desejo de satisfação imediata de seus desejos e necessidades — o que, no entanto, nem sempre ocorrerá. O seio materno, por exemplo, nem sempre estará disponível quando for desejado, e em algum momento será definitivamente retirado, deixando de ser uma fonte de alimentação e prazer.

Ora, o meio exterior (representado pelos pais), possui uma vontade superior, à qual cabe necessariamente sua sujeição inconsciente, causando-lhe, entretanto, impressões de desconforto que serão gravadas indelevelmente em sua memória, com rejeição proporcional à revolta experimentada ao ser-lhe negada, ou adiada de alguma forma, a fruição do prazer.

Portanto, a consciência do superego se forma ainda na fase não verbal (via mecanismos de recompensa e castigo), como a consciência do "não", "agora não", "não pode", impedindo ou adiando a realização dos propósitos do id (e será reforçada ao longo dos primeiros anos da criança com uma carga de valores familiares, bem como de críticas e repreensões).

O sentimento de infelicidade
Logo surgirá a consciência de ego do bebê, em seus primórdios, com a percepção de si mesmo como entidade separada da mãe, sendo regido, a partir daí, pelo princípio de realidade, restritivo ao princípio do prazer. A consciência do ego surge na faixa situada entre o id (inconsciente) e consciência do superego (limites, proibições, valores), isto é, entre os princípios do prazer e da realidade. Ou seja, a partir de uma situação de conflito (entre o id e o superego) — e sua primeira característica é a resistência às normas restritivas que o impedem de obter a satisfação de seus desejos.

As pulsões inconscientes (impulsos sexuais e demais desejos e apetites), entretanto, continuam ativas e sempre exigem satisfação imediata. E assim continuarão pela vida toda, assim como as injunções coercitivas do superego.

De um lado, portanto, o ego é a fachada do id — sempre querendo satisfação e prazer — e, de outro, incorpora os valores da família e da sociedade, representadas por limites e proibições.

O id é a única instância mental presente desde o nascimento; e é também uma enorme fonte de pressões pela satisfação imediata e incondicional de seus desejos. Já a instância mental do superego, adquirida do meio, é uma fonte de restrições, ou seja, de infelicidade. Porque agora não basta abster-se de satisfazer certos desejos; o mero fato de desejá-los já é motivo de mal-estar, auto-condenação e sentimento de culpa.

Difícil tarefa caberá à consciência de ego: pressionado pelo id e suas pulsões, deverá lutar pela satisfação dos desejos sem infringir as normas de conduta e os valores sociais e familiares. É essa, segundo a teoria psicanalítica, a origem da consciência.

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Essa faixa consciente, submetida a pressões e restrições de toda sorte, é a sede dos processos de pensar e sentir, sem que haja ali nenhuma entidade, seja física ou psicológica, responsável por esses processos. E é nela que surge o nosso familiar eu, que em nenhum momento se dissocia do pensamento; a ideia que dele se faz de ser separado do pensamento, e em nível hierarquicamente superior, e ainda por cima dotado de permanência, é exatamente o que Buda descobriu ser um falso conceito, uma mera construção mental, responsável por todos os sofrimentos psicológicos do ser humano.

Da mesma forma, J. Krishnamurti diz que o pensador (o eu) é uma ilusão criada pelo pensamento, que, vendo-se impermanente, fragmentado, deseja permanência.

E Jesus Cristo realizou a consciência da unidade: Eu e o Pai somos um, abrindo mão de sua identidade humana ("Seja feita a Tua vontade e não a minha").


Agora, vejamos como essa questão foi intuída por um grande poeta, um dos maiores do mundo em todos os tempos: Fernando Pessoa, através de seu heterônimo Ricardo Reis, em um pouco conhecido trecho de poesia:

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Os "inúmeros" a que se refere o poeta são as vozes mentais que ouvimos incessantemente, as quais são manifestações das energias do corpo (mente-cérebro incluída), desejando satisfação, preenchimento ou conforto, tanto para dores ou necessidades físicas como para realizar prazeres experimentados, ou esquecer e aliviar a dor de perdas sofridas. São os nossos muitos eus, os quais frequentemente estão em contradição entre si.

O poeta, em sua simplicidade verdadeira, declara: "ignoro quem é que pensa ou sente; sou somente o lugar onde se sente ou pensa". Não há, portanto, o sujeito que pensa ou sente; há apenas o processo de pensar e sentir.

Na mesma linha de reflexões diz Fernando Pessoa, em outro poema:

Nesta vida em que sou meu sono,
Não sou meu dono,
Quem sou é quem me ignoro e vive
Através dessa névoa que sou eu
Todas as vidas que eu outrora tive,
Numa só vida.

Em sua visão de si mesmo, o poeta reconhece suas diversas compulsões, hábitos mentais, reações emocionais com seus impactos físicos, e tudo o mais que compõe nossa vida psicológica, como manifestações de tendências latentes de vidas anteriores, expressando-se nesta existência. Como na conhecida analogia budista, a psique humana é comparada a uma casa sem dono.

A consciência, palco de todas as representações mentais, está coberta de névoa, diz ele, uma névoa onde atuam seus diversos eus, e que oculta o Ser verdadeiro: "Quem sou é quem me ignoro e vive através dessa névoa que sou eu" Enquanto essa névoa não for removida, "Quem sou" permanecerá não experienciado.

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Voltando ao tema dos sete vultos do início, vemos que ele também se agarra à ideia de um eu pessoal independente de seus conteúdos, e que pode atuar sobre eles através de sua vontade (que não é nada mais do que pensamento concentrado). Essa concepção, ainda que falsa, tem a segurança do rebanho e da tradição, o que aparentemente lhe confere certa coesão interna, ainda que a um custo muito elevado.

No fundo, porém, levamos o procedimento do bebê pela vida afora; talvez não choremos nem berremos, mas resistimos de variadas formas à impossibilidade de realizar nossos desejos, e contra isso nos revoltamos. Mesmo que seja o desejo de erradicar outros pensamentos, livrando-nos do desconforto, como no tema dos sete vultos. Por aí vemos o pensamento como instrumento do desejo; não há nenhum eu; há apenas o desejo essencial, básico, de conforto e satisfação, ou seja, o velho id em ação.

A ideia do eu individual é o combustível do jogo da manifestação: pelo sentimento de vazio e incompletude que traz consigo, gera o eterno desejo de vir-a-ser, e da autorrealização como entidade individual.

Muitos, porém poderão ser fisgados pelo Mistério, que não pode ser manipulado por respostas prontas ou semiprontas, e para ser trilhado exige o amor à verdade por si mesma, sem desejo de recompensa ulterior.

Enfim, cabe a cada um, dentro de seu amor à verdade, descobrir dentro de si o que se é, através da prática dioturna do autoconhecimento.