Cantinho Cultural - Mitologia grega

Perseu e Belerofonte

por Luiz Roque professor, poeta e escritor - 10/Janeiro/2008 

NA Grécia, havia os heróis ou semideuses, que eram filhos de um deus com uma mulher ou de uma deusa com um homem. Os heróis tinham grandes poderes, mas não eram imortais como os deuses.

Esta saga, que inclui a de Héracles (Hércules), pertence à civilizaçao dórica, do Peloponeso.

Acrísio, rei de Argos, tinha uma filha virgem, Dânae e, certa vez, consultou o oráculo a respeito dela. A pitonisa informou que ela teria um filho, o qual mataria o avô. Este, amedrontado, prendeu a filha num quarto inexpugnável.

Entretanto, Zeus, o deus dos deuses, penetou no quarto, sob a forma de uma chuva de ouro e engravidou a jovem (para finalidades como essa, os deuses usavam frequentes disfarces ).

Ali, nasceu a criança, Perseu, sob os cuidados da mãe e de uma aia. Quando, certa vez , Acrísio ouviu o choro do menino, atribuiu a paternidade ao seu irmão, matou a aia, prendeu a filha e o neto numa caixa de madeira e lançou-os ao mar. A caixa foi parar na ilha de Sérifos, sendo que um pescador socorreu os náufragos e os entregou ao rei Polidectes, que se apaixonou por Dânae.

Passou o tempo e Perseu, já mais crescido, era um empecilho às pretensões de Polidectes. Num jantar, em que os cortesãos prometeram presentes ao rei, Perseu lhe ofereçeu a cabeça da Medusa(achava que, assim, melhor defenderia a mãe).

AS GÓRGONAS Medusa, Euríale e Esteno eram três irmãs, que viviam no extremo ocidental do mundo, próximo ao país das Hespérides, de onde Héracles roubara os pomos de ouro, no seu 11o Trabalho.

As três tinham cobras no lugar dos cabelos e convertiam em pedra quem as mirasse ( o que lembra Edith, mulher de Lot, convertida em estátua de sal, na mitologia hebraico-islâmico-cristã). Das três, apenas Medusa era mortal.

O primeiro problema do herói era saber como chegar até elas e o segundo, como não ser petrificado. Perseu recorreu, então, a Hermes (deus mensageiro) e a Atena (deusa da guerra e das artes). Do 1o recebeu sandálias aladas, que lhe permitiam voar e um saco especial (kibisis) e da segunda recebeu o capacete de Hades (deus dos infernos), que o faria invisível.

Ainda a conselho desses dois deuses, achou o caminho para as velhas Gréias, irmãs das Górgonas, que viviam no país da noite. AS três possuíam, AO TODO, um só olho e um só dente. De tal forma que, quando uma enxergava, as outras aguardavam o único olho. Perseu apoderou-se do olho e do dente comuns e exigiu, para devolvê-los, que as estranhas anciãs lhe indicassem o caminho das Górgonas.

Lá chegando, sem fitar os olhos dos perigosos monstros, voando invisível, ele decapitou a medusa. E colocou sua cabeça no kibisis. Do sangue da medusa, nasceu o cavalo alado Pégaso, símbolo da Arte e da Poesia, que se dirigiu para o monte Parnaso (onde viviam as musas).

Com uma patada no monte Hélicon, Pégaso criaria a Fonte de Hipocrene. cujas águas inspiravam os poetas.

ANDRÔMEDA
No regresso de Perseu, ao voar sobre a Etópia, viu uma jovem amarrada a um rochedo, apavorada. Desceu para informar-se. Tratava-se de Andrômeda, filha dos reis Cefeu e Cassiopéia. Esta rainha, muito vaidosa, quisera rivalizar, em beleza, com as Nereidas (divindades marinhas, filhas de Nereu e Dóris).

Tal pretensão era quase blasfema e as Nereidas queixaram-se a Poseidon (deus do mar). Este enviou um monstro que estava destruindo o país. Para bani-lo, a princesa Andrômeda deveria ser oferecida a ele.

Perseu prometeu destruir o monstro, se tivesse Andrômeda em casamento. O jovem herói cumpriu facilmente seu compromisso, mas Fineu, pretendente anterior de Andrômeda, liderou uma conspiração para matá-lo.

Porém, servindo-se da cabeça da medusa, ele os petrificou.

De volta a Sérifos, constatou que Polidectes tentava apoderar-se à força de sua mãe, Dânae. Perseu transformou o rei e sua corte em estátuas de pedra. Colocou no poder um pastor amigo e devolveu as sandálias, o capacete e o kibisis a Hermes.

Atena incorporou a cabeça da medusa ao seu escudo.

Perseu retornou, agora com Andrômeda e Dânae, a Argos. Acrísio, seu avô, por prudência, transferira-se para Larissa. O herói seguiu à procura do avô, já que ele desconhecia a profecia do oráculo. Havia, na ocasião, jogos fúnebres em honra do falecido pai de Teutâmides, o rei local.

Perseu foi inscrito e, num lançamento canhestro do disco, atingiu seu avô, entre os assistentes, matando-o. Profundamente magoado, o filho de Zeus não quis voltar a Argos.Foi para Tirinto, onde reinava Megapentes, seu sobrinho. Decidiram, então, inverter os reinos, conforme cita Ruth Guimarães: Perseu reinou em Tirinto e Megapentes, em Larissa.

BELEROFONTE

A saga de Belerofonte sendo de Corinto, também é dórica. É conveniente citarmos que os jônicos(áticos,atenienses) são os relatos ligados a Teseu Ariadne, rei Minos , Minotauro. Quanto a Édipo, Electra, Orestes,Clitemnestra, Antígone etc. são gestas de origem tebana.

Belerofonte era irmão de Beleros, tirano de Corinto (tirania, na Grécia, era um governo não monárquico nem democrático e que se opunha à aristocracia.). Era tido como filho de Glauco, por sua vez, filho de Sísifo, condenado pelos deuses, a rolar eternamente uma pedra, montanha acima, a qual caía de novo(como o serviço doméstico das mulheres).

Na verdade, Belerofonte era filho de Poseidon (rei dos oceanos) com a mulher de Glauco, Eurimedéia, filha de Eneu, rei de Cálidon. Belerofonte matou, sem querer, a seu irmão Beleros e, por isso, teria de deixar Corinto e se purificar.

Foi para Tirinto, sendo purificado pelo rei Preto, pai de Megapentes, visto na saga de Perseu. Segundo Homero, Antéia, mulher de Preto, se apaixonou pelo jovem e, ante a recusa de Belerofonte, informou ao marido que o herói tentara seduzi-la (como ocorreu com José do Egito, em relação à mulher de Potifar, em outra mitologia).

O rei Preto enviou, então, Belerofonte para Iobates, rei da Lícia, com uma carta que, nas entrelinhas, aconselhava matá-lo.

Este rei.então, como forma de desvencilhar-se do jovem, exigiu que ele matasse a Quimera, um monstro misto de leão e cabra, que emitia fogo e estava devastando a região da Lícia.

Mas a deusa Atena colaborou para que Belerofonte encontrasse o cavalo Pégaso bebendo num regato e,┬┤montado nele, o herói matou a Quimera num só golpe. O rei Iobates ainda exigiu que Belerofonte enfrentasse sozinho um povo inimigo e feroz (os solimos) e, vencidos estes, que lutasse contra as Amazonas, cavaleiras famosas e arqueiras destras, que aparecem também nas sagas de Héracles e de Teseu.

Belerofonte exterminou grande número delas.

Finalmente, o insistente rei armou uma emboscada com seus guerreiros mais poderosos, aos quais, todavia, Belerofonte dizimou.

O rei, então, reconheceu-o como semideus e mostrou-lhe a ardilosa carta de Preto. Belerofonte se casou com Antíclia, filha de Iobates e herdou o reino. Teve dois filhos e uma filha, Laodâmia, que seria mãe de Sarpédon, forte guerreiro dos troianos (que seria morto por Pátroclo). Mas o orgulho de Belerofonte o levou a tentar, montado em Pégaso, subir o monte Olimpo, que era a morada dos deuses. Zeus, então, o precipitou, matando-o.

COMENTÁRIOS

I) Estas lendas vêm de épocas remotas, da Idade do Bronze(antes de1200AC). É curioso notar que elas não fazem referência ao bissexualismo, tão comum entre os gregos, a partir do século V AC.

II) Nas histórias dessa época, os deuses viviam e conversavam com as pessoas, da mesma forma que fazia o deus de Moisés, que corresponde à mesma ├Ępoca. Por que pararam? Horror à imprensa?

III) Os deuses gregos tinham os mesmos defeitos dos homens (até piores). Mas os gregos não achavam que deviam amá-los, apenas os temiam. É o medo que vem do mais remoto passado . Da mesma forma, não existe ninguém capaz de amar o deus Javé ( ou Jeová ) acima de todas as coisas. Era um deus cruel, vingativo, ciumento e discriminador.

Já está na hora de se discutir a total incompatibilidade entre o pensamento do Velho e o do Novo Testamento.

(Final)    
  

Prosseguir       Voltar