Corinthians - a origem de um nome 
Luiz Roque - professor, contista e poeta emérito 

I - O termo na Inglaterra
Sir Conan Doyle (1859-1930) imortalizou-se com o detetive Sherlock Holmes, criado por ele. Entretanto, este escritor que, entre outras coisas, foi médico e pugilista, escreveu outros tipos de romances.

Um dos menos conhecidos é "Rodney Stone". No livro, este personagem, aos 65 anos, descreve, em 1851, parte de sua adolescência, na Inglaterra das batalhas marítimas contra Napoleão. Essencialmente, as memórias se referem ao início do século XIX, até o combate de Trafalgar, em 1805.

Na descrição desse período, Rodney Stone expõe que eram chamados "Corinthians" os cavalheiros e os nobres que se dedicavam ao esporte ou o patrocinavam, empresariando atletas.

Citemos a tradução brasileira, de Breno Silveira, Edições Melhoramentos, sob o título: "A curiosa história de Rodney Stone", 2ª edição. Na página 131, lemos:

"... como habitualmente faziam os que, naquela época, desejavam figurar como "corinthians" e patronos dos esportes".

Na página 147:

"Meu tio jamais fumara, julgando que tal hábito poderia escurecer-lhe os dentes, mas muitos dentre os "Corinthians", entre os quais o próprio Príncipe de Gales, deram, na ocasião, tal exemplo."

E no início do livro, na página 18:

"Um cavalheiro, trajando uma capa branca de cocheiro — um "Corinthian", como costumávamos chamá-los naquela época — ..."
Vemos que, em 1851, quando Rodney escreve suas memórias, o termo já era desusado.

II - A cidade de Corinto
Corinthian, em inglês (coríntio, em português) significa, ao pé da letra, natural da cidade de Corinto, na Grécia.

A cidade-estado de Corinto (Khórintos, em grego) era uma das "pólis" helênicas, e situava-se no istmo de Corinto, que liga a Península do Peloponeso à Ática.

Seu luxo era célebre. A cidade presidia aos Jogos Ístmicos, entre atletas gregos, que se realizavam a cada 4 anos, até 581 a.C.

Dessa data em diante, passaram a ocorrer de 2 em 2 anos. Ligando-se o requinte da sua aristocracia aos jogos esportivos que a cidade patrocinava, talvez se possa entender por que os cavalheiros esportistas de Londres e arredores, no final do século XVIII e princípios do século XIX se denominavam "Corinthians", isto é, coríntios.

A cidade, que é anterior ao ano 1000 a.C., teve um papel importante na mitologia grega. De lá saiu Belerofonte, para matar a Quimera. Édipo foi criado lá. Jasão e Medéia ali viveram parte de suas vidas. Na época da dominação romana, foi feita capital da Acaia (nome romano da Grécia).

Já no período cristão, a cidade foi evangelizada por São Paulo (Paulo de Tarso). Este pregador ali esteve de 50 a 52 e fundou a igreja cristã de Corinto. Posteriormente, escreveu, de Éfeso e da Macedônia, duas célebres epístolas dirigidas "aos coríntios". Destaca-se o capítulo 13 da primeira epístola, que se refere à caridade e ao amor, e que costuma ser lida nos casamentos.

Hoje, Corinto é pequena, e nem sequer se localiza no mesmo lugar da orgulhosa cidade do passado (18.000 habitantes em 1970). Sua população é ortodoxa, como em toda a Grécia.

III - OS TIMES
Na primeira década deste século, veio ao Brasil um clube inglês de futebol chamado CORINTHIANS, nome este que revivia uma expressão de há muito fora de moda.

Esta equipe excursionou pelo Brasil e despertou grande entusiasmo. Assim foi que, em 1910, um grupo de esportistas que incluía vários italianos e diversos industriais, fundou, em São Paulo, o Sport Club Corinthians Paulista.

Finalmente, os paradoxos da História: esse time possui um nome exótico, muitas vezes mal pronunciado, com um TH e um N estranhos ao nosso idioma.

Tal nome se liga a uma cidade da Grécia distante, que poucos conhecem, e designou, num passado remoto e esquecido, os aristocratas esportivos da Inglaterra.

A entidade é, ainda, representada por um distintivo rebuscado, com uma âncora e 2 remos, que lembram, melhor, um clube náutico.

Mas esse conjunto de excentricidades formou, ao que parece, um todo apaixonante, para a população de São Paulo e do Brasil.

E a equipe fundada em 1910 angariou, surpreendentemente, a mais numerosa torcida de São Paulo, e na qual predominam, exatamente, os segmentos mais simples e modestos do nosso povo.

Que estranha ligação com o mundo e com o passado tem a torcida corintiana?

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