Medo das estrelas
Poema de JC Cavalcanti


Antes do meu amor virar desejo,
Ele era o vazio do Universo doendo dentro do meu peito,
Mas eu não sabia disso.
Então, eu era um menino-homem.
Quando fui ao mundo preencher esse vazio
Conheci o Inferno e seus demônios,
E me alegrei demais com eles,
e depois me entristeci,
E repeti esse ciclo inúmeras vezes,
Enredei-me em seus prazedores e perdi o caminho.

Hoje sei que aquela primeira dor
não era uma dor de verdade.
Era como um vazio doloroso que queria ser preenchido,
Era mais um medo de ficar a sós com as Estrelas.
Pareciam tão alheias, tão frias, distantes e indiferentes!
Acho que foi por isso que fugi assustado,
e continuei fugindo por quarenta anos.

Mas agora estou cansado.
Perdido no meio do mundo e seus objetos,
Senti aquela dor inúmeras vezes.
Nada havia que me distraísse dela.
Quão terrível aquele vazio!
Os objetos de paixão iam e viam,
e aquele vazio estava sempre ali,
queimando dentro de mim.

Não havia preenchimento nem esquecimento.
Minha eterna incompletude.

Agora entendi aquela dor era um sinal,
um sinal da conexão perdida com o mistério de onde eu saíra,
Lembrando-me de que eu haveria de voltar.
Era um prelúdio das dores que eu viria a sentir
Ao realizar meu destino humano,
Quando vim ser o que sou:

Mil máscaras coladas no espelho translúcido.


Agora, quero o que está além das máscaras,
descobrir minha natureza original,
reconciliar-me com o Silêncio.
Pois agora meu amor não é mais desejo:
Agora sou homem-menino,
E já não tenho medo das Estrelas.   

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