Minha oração impossível
Poema de JC Cavalcanti

11/11/2006


Oh, Senhor de todas as distâncias!
Oh, Tu que podes amparar o mais desgarrado!
Aumentaram muito minhas tristezas,
minha miséria parece não ter fim.
Estou num poço profundo,
de onde não vejo o céu,
de onde não vejo a luz.

Sem beleza nem paz transcorre esta existência,
sem alegrias para sentir,
sem horizontes bonitos para ver.
Clamo de dentro da dor,
da desenergia.
Não há mérito, nenhuma aquisição,
nada para se elogiar,
merecimento nenhum, 
Apenas uma grande carga de desgostos.

Os bons me dizem que sou culpado,
que fiz as escolhas erradas.
Eles são bem intencionados, bem sucedidos,
Têm suas dores, mas também recompensas,
e parecem estar perto de Ti.
Mas eu, errando neste deserto,
nada posso dizer em meu favor.

Vou seguindo em desterro e aflição,
minha espinha dorsal está quebrada,
já não posso levantar minha cabeça,
e não sei como me conduzir: 
sinto-me verdadeiramente anulado.

Então me ocorreu de fazer esta prece,
sem nem saber o que pedir,
sem nem saber como clamar.
Esta prece que parece
sem chance de ser ouvida...
Então, mesmo sem chance me dirijo a Ti,
mesmo se for além do possível,
e pergunto:

Haverá luz na escuridão?
Haverá compaixão no abandono, desterro e dor?
Haverá amor para um coração
repleto de culpa e mágoa?
Pergunto porque desisti de procurar,
porque não tenho energia para tentar descobrir.
Pergunto porque não sei nada,
porque perdi o rumo e a noção. 
Sinto-me tão destruído, inútil e incapaz!

Mas uma lágrima mansamente desce pela face ...
E mesmo uma lágrima salgada já é um alívio
para quebrar o amargor da alma
que se perdeu e não sabe o caminho de volta
para alguma santa Felicidade
de que não me lembro mais.   

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