A raiz do sofrimento 

José Carlos Corrêa Cavalcanti - 02/outubro/17


A raiz do sofrimento é a noção de que há uma pessoa responsável pelos processos de pensar e sentir. Essa pessoa é conhecida como ego ou eu.

Veja como a filosofia Hindu apresenta a origem do ego (resumidamente):

"Púrusha é o Espírito, a consciência pura que observa os fenômenos através da mente-cérebro.
Essa mente se encontra impregnada de Púrusha mas não o percebe (pois dirige-se ao exterior para satisfazer suas necessidades e desejos),
e assim se constitui o observador com seus canais sensoriais, seus pensamentos, julgamentos, sensações e emoções.

Esse observador, ao testemunhar os eventos da existência como se fosse num teatro, envolve-se psicologicamente com a trama e imerge no espetáculo como um ator, acentuando e cristalizando seu estado de ignorância primordial, isto é, de sua origem como espírito livre do enredo e suas cargas."

O ego, portanto, é, nessa analogia, como um espectador que se esquece de assistir o drama sem se envolver com ele, e se levanta de seu assento rumo ao palco para desempenhar papéis como um ator — ou como uma emanação do Espírito, que se afasta da consciência pura impessoal para se realizar no mundo das multiplicidades como um ser separado.

Assim é que nos sentimos como entidades individuais e separadas uns dos outros; se nós pensamos e sentimos, consideramos ser o nosso eu que pensa e sente.

Entretanto, a falsidade do conceito de um eu pessoal, de um homúnculo no meio do cérebro que está a sentir as dificuldades e problemas da vida e assim sofre por antecipação com suas preocupações e ansiedades, é dificilmente perceptível, pois o convívio social é inteiramente calcado nesse princípio, sendo cobrada de cada um a noção de si mesmo como um indivíduo separado dos demais.

Ao não conhecer-se em profundidade, ele se identifica totalmente com os conteúdos da memória e com seus desejos e necessidades, o que faz o pensamento girar e girar incessante e infrutiferamente à procura de soluções para os dramas da existência.

Pode o pensamento emocional, psicológico, cessar? não por decisão pessoal
Por isso, quando se pergunta se o pensamento pode cessar e acabar a agonia das projeções psicológicas para um amanhã que não existe de fato, sendo apenas uma criação mental, ou seja, se é possível o findar desse tormento interno que é patrimônio coletivo de toda a humanidade em todos os tempos, há várias possibilidades que dependem das tendências cármicas, do estado físico e do grau de evolução de cada um.

Krishnamurti diz que, ao perceber a insanidade de seus próprios processos, o pensamento deve cessar, o que é ação da Inteligência, não havendo uma decisão pessoal para esse findar (pois cessar o pensamento não pode ser fruto de uma determinação mental). No silêncio advindo desse "entregar os pontos", a verdade deve se manifestar.

Há muitos que enxergam num mestre todo compassivo, como Jesus, a fonte inspiradora para remissão desses dolorosos processos internos que nos infelicitam a existência, ao despertarem em si mesmos a semente da união mística e da compaixão graças àquele amor abrangente e acolhedor:

"Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei"...
"Eu e o Pai somos um"...
"Seja feita a Tua vontade e não a minha"...
"Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis.
O meu alimento consiste em fazer a vontade dAquele que me enviou"...

Outros ensinamentos, como a acima referida concepção hindu sobre a origem do ego, também podem nos ajudar a despertar do sonho de sermos diferentes de nossa própria origem, como separada criatura, em eterna procura de uma felicidade entre os objetos do mundo, impermanentes e enganosos como nossas próprias sensações e emoções — descobrindo, finalmente, nossa identidade primordial, ou "face original" como diz o Zen.

Enfim, o assunto é amplo e complexo, e estas notas não têm absolutamente a pretensão de resolvê-lo, mas somente de contribuir para o esclarecimento de nossas mentes e final da escravidão.

 


  Voltar