ELOMAR - sons medievais na caatinga nordestina
por J.C.Cavalcanti 

Castelos e cavaleiros, princesas e reis, madrigais e trovadores — é esse o mundo mágico da música de Elomar, o ex-arquiteto baiano que trocou as construções pela criação de bodes em Vitória da Conquista, na Bahia, na Fazenda do Rio Gavião.

Tropeiros, retirantes, a terra devastada pela seca e as duras condições da vida no sertão, também são temas frequentes em sua vasta obra.

Conheci Elomar há muitos anos, em Vitória da Conquista, na casa de seu amigo Vicente Quadros, cujo endereço me foi dado por Dércio Marques, brilhante cantor, compositor e divulgador de Elomar.

Na ocasião, gravei uma entrevista com ele, que preparava fitas com músicas de seu LP "Na Quadrada das Águas Perdidas", para mandar para a censura em Brasília.

Isso em 1978, quando o Brasil vivia os estertores da ditadura. Perguntei-lhe como se sentia, tendo que enviar suas músicas para serem censuradas.

Respondeu: "Se me tocarem politicamente, sou capaz de subir ao alto de um morro e jejuar cem dias e cem noites, clamando aos anjos do céu para me ajudarem!".

E acrescentou, matreiro: "Porque para enfrentar o exército, meu filho, só mesmo os anjos do céu..."

Religioso, quase místico, dono de intensa criatividade musical, Elomar resgata a poesia da caatinga e traduz em canções belíssimas, de acordes medievais e letras inspiradas, mitos e temas populares de memória longínqua, muitos deles de nítida influência ibérica, como donzelas trancafiadas numa torre, cantigas de amigo, a luta contra os mouros, lugares encantados perdidos no sertão.

Vejam, por exemplo, "A Casa dos Carneiros":

"Vá na Casa dos Carneiros,
onde os violeiros vão cantar louvando você.
Tem cantiga de amigo
cantando comigo,
somente porque você é:
Madre, amiga — mulher.
Lua nova no céu, que já não me quer...

Lá na Casa dos Carneiros
sete candeeiros iluminam a sala de amor
Sete violas em clamores, sete cantadores,
são sete tiranas de amor
Madre amiga, em flor
que partiu e até hoje não voltou..."

Em "Cavaleiro do São Joaquim", Elomar fala da ânsia humana à procura do lugar de repouso, fugindo de uma realidade amarga:

"Caminhando tão só,
vejo a terra ruim
O sol tudo queimou,
a lagoa virou pó,
e os rebanhos estão sumindo...
Vêm subindo atrás de mim.

Carro andante eu sou
por esse reino sem fim
Meu cavalo voou,
procurando o lugar
que minha vó contava prá mim
— Cavaleiro do São Joaquim!

Sonho que na derradeira curva do caminho
existe um lugar sem dor, sem treva, sem espinho.
Mas se de repente lá chegando não encontrar
seguirei em frente, caminhando, a procurar..."

Em "Acalanto", vemos o tema da insatisfação humana, da eterna procura, da busca de algo maior, do amor, do desconhecido — algo que preencha o vazio da vida:

"Certa vez ouvi contar
que muito longe daqui
Muito além do São Francisco, ainda prá lá...
Em um castelo encantado,
morava um triste rei
E uma linda princesinha,
sempre a chorar...

Ela sempre demorava
na janela do castelo
Todo dia à tardezinha, a sonhar...
Bem prá lá do seu castelo,
muito além, ainda mais belo,
havia outro reinado,
de um outro rei.

Certo dia a princesinha,
que vivia a chorar
saiu andando sozinha,
ao luar...

E o castelo encantado
foi ficando inda prá lá
Caminhando e caminhando,
sem encontrar!

Contam que essa princesinha
não parou de caminhar,
e o rei endoideceu,
e na janela do castelo morreu,
vendo coisas ao luar!"

A antiga lenda da donzela presa numa torre é resgatada magistralmente em "O Rapto de Joana do Tarugo":

"Enfrentei fossos, muralhas e os ferros dos portais
Só pela graça da gentil senhora!
Filtrando a vida pelos grãos de ampulhetas mortais...
d'Álém de trás os montes venho
por campos de justas honrando este amor
me expondo à sanha sanguinária de cortes cruéis...

Oh Senhora dos Sarsais,
minha alma só teme ao Rei dos Reis!
Deixa a alcova, vem à janela,
Oh Senhora dos Sarsais,
Só por vosso amor e nada mais."

Em "Campo Branco", belíssima canção, Elomar traça um paralelo entre a chegada da chuva para a terra e a vinda do amor para o sertanejo:

"Campo Branco, minhas penas, que pena, secou
todo o bem que nós tinha era a chuva, era o amor...
Não tem nada não, nós dois vai penando assim
Campo lindo, ai que tempo ruim:
tu sem chuva, e a tristeza em mim!"

Eis aí um rápido perfil deste grande músico brasileiro, tão pouco divulgado em nossos meios de comunicação. Elomar costuma vir a São Paulo nos finais de ano, apresentando-se, em geral, nos teatros do Sesc, possuindo um público entusiástico e fiel.

É um artista genuíno, criador, e merece ser conhecido.

 

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