MEDITAÇÃO DO PAGAMENTO DA FATURA
(Baseado no Capítulo "Meditação" do livro "Uma gota de silêncio" - página 103)

José Carlos      (31/Julho/18)

Geralmente, quando nos sentamos em meditação, está implícito o desejo de atingir um estado de Unidade, de comunhão com Deus. Isso passa pela difícil questão de como, partindo de nossa habitual multidão de pensamentos, vozes, imagens, julgamentos, sensações e emoções, se poderia atingir o estado de silêncio interior, pois o pensamento não pode silenciar a si mesmo (a não ser, talvez, por alguma espécie de auto-hipnose, o que não é absolutamente o caso).

Então vem a tentativa de autotranquilização via respiração calma, imaginando que o objetivo de conseguir o silêncio interior será alcançado em algum momento no decurso do tempo. Mas, tudo isto é parte da autoenganação da mente para preservar a si mesma enquanto tal (isto é, tagarela), pois o tempo e o vir a ser são a sua matéria prima predileta, que a mantém em pleno funcionamento.

Sabendo que o "eu" não pode produzir o silêncio, pergunto então: "Pode o Espírito Crístico de compaixão e Unidade despertar-se em minha consciência e habitar em meu coração?"

Assim fazendo, entro num estado de completa completa aceitação de tudo o que acontecer desse momento em diante como sendo resposta a essa questão; em outras palavras, a vida será meu espaço de meditação; não apenas meia hora por dia, contra 23,5 hs de livre vaguear da mente por aí.

Saberei, então, por mim mesmo, se há algo que impede (e o que é, afinal) que nasça o Cristo interno em MIM.

 

Então descubro que esse MIM é a parte crucial de tudo isso; infelizmente, porém, só me conheço como as ondas do mar — sempre instáveis, ora mais serenas, ora mais caóticas e destruidoras.

Não conheço as águas profundas e calmas do oceano; somente conheço o meu "eu pessoal", sempre ansioso, temeroso; e sei que ele quer paz, a paz que não encontra em si mesmo, e que deseja mais que tudo.

PAGAMENTO DA FATURA
Mas, se eu tivesse que me apresentar a Deus neste exato momento, se fossem meus últimos instantes nesta existência, o que faria? Tentaria mostrar-LHE o melhor de mim? Que conteúdos e crenças selecionaria? Tentaria impressioná-LO com minhas tristezas e dores, talvez com meus merecimentos?
Claro que não; isso seria infantil: não podemos enganar a Deus.

Na bela cosmogonia judaica da criação do mundo, o homem e a mulher tiveram que sair do Jardim do Eden, quando tiveram consciência de sua nudez e cozeram roupas para escondê-la — tinham, então, adquirido a consciência de ego, como seres separados e dotados de interesses próprios, o que os fez sair do Paraíso.

Era o início da aventura humana sobre a Terra, recriada em cada ser humano que nasce: passa de inocente criança à puberdade, e depois à busca da realização sexual, pessoal, profissional, familiar, etc., onde conhecerá o prazer e a dor, mas não a Paz — cujo desejo está na base de todas as suas buscas.

Volto a perguntar: se fossem agora seus últimos momentos, caro amigo, como você se apresentaria a Deus? Não teria que se desnudar totalmente de todo e qualquer conteúdo mental, psicológico, emocional? Não teria que estar em perfeita inocência, em sua identidade última, essencial, irredutível? E esta, em si, já não é uma fagulha de Deus, já não tem a mesma natureza da Consciência Primordial?

 

Imagine o caso do "bom ladrão", sendo crucificado ao lado de Jesus: ele não tinha nenhum mérito; como é possível que ele se transformasse tão radicalmente a ponto de "entrar no Paraíso"? O milagre de sua transformação radical só foi possível porque ele não tinha tempo. Movido pelo imenso amor de Jesus (naquela hora terrível, ainda conseguiu lhe dar atenção) , desapegou-se totalmente de seu passado e entregou a Deus seu espírito sem qualquer mácula.

Coisa que não fazemos.

E não fazemos por causa do TEMPO que desejamos ter e SUPOMOS ter (o que é apenas uma hipótese que, em algum momento desconhecido, falhará).

Não fazemos, porque a maior característica da consciência de ego, ou eu pessoal, é o desejo de continuar; ele sempre quer mais, mais tempo, mais experiências, mais oportunidades.

Somente nos entregaríamos — e naturalmente, sem esforço — se não tivéssemos tempo algum. Pois o alimento da consciência de ego é o TEMPO.

Essa entrega exige que estejamos desnudos de todos os conteúdos adquiridos. Nosso eu pessoal, no entanto, só existe como agente da repetição desses conteúdos, o que lhe fornece continuidade psicológica, com o pensamento girando e girando para realizar o prazer e evitar a dor.

Essa percepção é importante, pois nela há a exposição do elemento separativo. Essa exposição do eu separativo deve ser fruto de uma investigação firme, mas gentil e compassiva, para que se revele, de mim para comigo, o que é que impede a comunhão, e porque o Cristo interior não está podendo nascer em mim.

Saímos do Paraíso ao cobrir nossa nudez; agora, psicologicamente, precisamos DES-COBRIR nossa consciência cotidiana de suas máscaras, para que ela se revele, em sua nudez, como a semente de Deus em nós.

Amigos, o "Nascer de Novo" implica a supressão de toda vontade própria em termos de querer realizar felicidade pessoal na vida, pois tudo deve ser aceito como expressão da vontade de Deus.

Ao compreender isso, desfaz-se a força de atração centrípeta (isto é, em busca do centro) dos objetos mentais e emocionais que giram em torno de nós como os planetas giram ao redor do sol; essa força de atração era gerada pela concepção do eu pessoal.

Os objetos mentais e emocionais continuam a existir, mas não haverá mais um ego a atraí-los para si.

Temos que viver cada momento como se fosse nosso final, pois não sabemos quando é O VENCIMENTO da fatura.

 


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