Os árduos caminhos da transformação interior
Uma reflexão sobre os estados de consciência na busca da sabedoria

José Carlos      (17/Agosto/18)

Uma possível classificação dos estados de consciência dos seres humanos (sem qualquer pretensão de ser a única nem a melhor) seria:

1º) Aqueles que nem suspeitam minimamente que há uma realidade não produzida pela imaginação nem formada por pensamentos, crenças, ideologias, sensações e emoções — o que constitui o mundo da mente, no qual:

      - Só é verdadeiro aquilo que provém das impressões sensoriais, da ciência, da tecnologia e do raciocínio lógico;

      - O que importa são as coisas concretas, utilitárias, e as emoções
      que surgem dos sentimentos de apego e aversão a essas mesmas coisas;

      - O que faz sentido são as teorias e ideologias que interpretam e explicam a realidade física e mental;

      - O que buscamos (no sentido psicológico) é encontrar fundamentos filosóficos ou crenças religiosas
      que diminuam ou acabem com nosso medo da morte, da impermanência e da luta do bem e do mal.


Nesse nível a verdade é relativa, pois depende do referencial (conjunto de pressupostos tidos como verdadeiros) de onde se observa. Raramente se pensa em transformação interior, e quando esta se impõe (a partir de uma situação de sofrimento), é entendida como o automelhoramento horizontal, por meio da disciplina do pensamento e dos hábitos (via esforço e repressões internas), e aquisição de novos conteúdos, sempre visando a usufruir de recompensas futuras;

Esse é o estado de consciência de ego, o qual abarca a imensa maioria da humanidade.

 

2º) Estados que têm noção intelectual da existência de um espaço de consciência transcendente ao mundo mental e se interessam pelo assunto, mas não tiveram experiências correspondentes, permanecendo no campo da teoria. Trata-se de um estado relativamente raro, que exige amor ao autoconhecimento e perserverança; acompanhado de humildade, será a base de ulterior transformação;

3º) Estados que tem noção da transcendência da mente e já a experimentaram, mas não têm estabilidade nela, e assim as pessoas nesse estado expressam-se na maioria das vezes como a consciência de ego, mesmo que achem que estão expressando a Consciência Pura.
A instabilidade desse estado torna-o delicado, sobretudo quando traz prematuramente a ideia de transformação ou iluminação (o que pode originar declarações fundamentalistas e gerar autoritarismo, intolerância e inimizade).

4º) Estado de consciência de sabedoria, em larga conexão com o Espírito, de forma estável, na vivência de um espaço transcendente e superior aos pensamentos, cultura, crenças, ideologias e emoções. É o estado onde se encontram os grandes sábios da humanidade, raríssimos em todos os tempos e lugares.

 

Por isso, uma coisa fundamental na busca de sabedoria é ter bem clara, para nós mesmos, questões como:

- "De onde é que eu estou falando?"
- "Será que não estou repetindo palavras e ideias que ouvi ou li de outros como se fossem minhas?"
- "Será que minhas palavras são a expressão fidedigna da inteligência pura, ou têm o viés de minha 'pessoalidade'?"
- "Estará meu comportamento em consonância com minhas palavras?
- "Que lugar tem a compaixão em minhas declarações aos outros?"

Veremos então que, na IMENSA maioria das vezes, estamos nos níveis de consciência 1, 2 ou 3, geralmente expondo/defendendo nossos pontos de vista, que pouco ou nada nada têm a ver com a Consciência Cósmica Universal e Impessoal, a qual se manifesta numa infinidade de formas (e, entre os seres humanos, desenvolve o sentido de uma "pessoalidade autossuficiente" totalmente inconsciente de sua origem — ou seja, nosso "eu").

Observe que é dos níveis 1, 2 e 3 que surgem os julgamentos, as concordâncias e divergências, as palavras ácidas, a intolerância, as mágoas, as simpatias e antipatias. Isso mostra os perigos e armadilhas da busca da sabedoria. O nível 3 é especialmente perigoso, pois nele o ser humano, perdendo a humildade, pode achar-se "dono da verdade", tendendo a condenar quem não pensa da mesma forma.

Saber de que ponto estamos falando nos faz mais PRUDENTES e HUMILDES em nossa postura e em nosso discurso, e considerar com mais gentileza os demais seres humanos, que, igualmente, expressam-se a partir de leituras, citações e conhecimentos anteriores como se fossem de sua autoria, ao lado de preconceitos, compreensões parciais, preferências e condicionamentos diversos.

Na verdade, em se tratando reflexões de natureza espiritual, em busca da sabedoria, tudo isso dificulta a compreensão, a abertura da consciência para o novo; e o novo é provar o sabor de nossa natureza original, que está sempre presente porém recoberta pelo manto da falsa identificação com as coisas observadas.

 


Voltar