Reflexões sobre o estado de consciência de ego
José Carlos      (21/Agosto/18)

Fala-se muito que o ego é o grande vilão da psique humana; os mais fundamentalistas falam até mesmo em derrota e morte do ego, mas pouco se diz sobre a natureza desse estado de consciência.

Na visão psicanalítica (Freud), trata-se da faixa de consciência que surge desde nossa extrema infância, onde ocorre a percepção do mundo e onde eclodem os desejos inconscientes do bebê: desejo de viver, de satisfação das necessidades físicas e psicológicas, e sobretudo de prazer imediato e incondicional, o que ele chamou de Id (isso).

A interação com o ambiente, sobretudo com os pais, é também percebida (como tudo mais) nessa faixa de consciência. Acontece que aí — bem cedo, portanto — começa a "doutrinação", a "moldagem", isto é, o processo de aprovação e de repressão social; o que pode e o que não pode, o que é bonito e desejável e o que é feio e repelente: a toda essa influência, Freud chamou de "superego".

"Algo" no bebê percebe que que certos tipos de comportamentos favorecem a realização de certos desejos, enquanto que outros são reprimidos, sendo que, para estes últimos, esse "algo" deverá desenvolver estratégias para realizá-los ou desistir deles (ocasionando o sentimento de frustração). Essa é, segundo a Psicanálise, a origem do ego — portanto, um espaço conflituoso desde o início; com os impulsos instintivos e emocionais do bebê (necessidade de afeto e acolhimento) se chocando constantemente com as respostas dos pais a suas demandas, satisfazendo-as (com maior ou menor presteza/grau de satisfação), ou reprimindo-as.

Progressivamente, ocorre a diferenciação das pessoas que cuidam dele (sobretudo mãe e pai), bem como a percepção de si mesmo como ser separado, juntamente com o desenvolvimento da consciência verbal mediante a qual identifica a si mesmo e aos demais.

Mais tarde, com o desenvolvimento físico e mental da criança, adentrando pela puberdade rumo à vida adulta, o pensamento será amplamente reconhecido e aceito como autoridade interior, em grande parte oposto aos impulsos internos, sobretudo de natureza sexual, com os quais se acha em permanente conflito.

O ego, dirá Freud, é "um pobre coitado", espremido entre três escravidões: os desejos insaciáveis do id, a severidade repressiva do superego e os perigos do mundo exterior. Por esse motivo, a forma fundamental da existência para o ego é a angústia.

Se se submeter ao id, torna-se imoral e destrutivo; se se submeter ao superego, enlouquece de desespero, pois viverá numa insatisfação insuportável; se não se submeter à realidade do mundo, será destruído por ele.

Cabe ao ego encontrar caminhos para a angústia existencial. Estamos divididos entre o princípio do prazer (que não conhece limites) e o princípio da realidade (que nos impõe limites externos e internos).


A autoidentidade fundamentada no pensamento e na memória, sem dúvida, é um ganho evolutivo (em relação ao lado emocional e ao desejo de prazer, coisas muito mais difíceis de lidar), não só pelo fato de representar a cultura e civilização humana, mas pelo fato de que, sob essa identidade, o ente humano é passível de todo tipo de condicionamento por meio da educação, que desenvolve o sentido do dever e responsabilidade, e pelas instituições repressivas (que acenam com punições em caso de desobediência).

Enquanto isso, o desejo inconsciente de prazer, que permeia todas as acões humanas, deverá ser controlado e reprimido pelo ego (esse é o trabalho do superego: inocular os valores sociais de raça, cultura, religião, etc. na consciência de ego (eu) de forma que este assuma COMO SEUS essas noções e valores).

A meu ver, não é dada atenção suficiente à consciência mediante a qual ocorre a capacidade de perceber e interpretar (inicialmente, de forma não verbal) o ambiente externo e as pulsões internas, gerando o que ele chamou de ego (palavra latina que significa "eu").

Essa consciência, onde ocorre a percepção do mundo, não é considerada em si mesma; é vista apenas como uma "condição sine qua non", um meio para um fim; não se vê nela qualquer relação com a vida nem com a inteligência. O fato fundamental da natureza, a capacidade de perceber, de estar consciente (de forma não verbal), é, assim, deixado em segundíssimo plano.

Em contrapartida, desenvolve-se sobre essa capacidade o sentido da autoidentidade, com total aceitação do pensamento como autoridade interior (isto é, aquele que dá as ordens), consolidando-se assim a noção de ego (eu). Essa aceitação é a principal faceta do estado de ego como um "eu" racional, ainda que em permanente conflito e disputando a hegemonia com as tendências latentes e desejos inconscientes.

Dessa aceitação derivam mil sentimentos, emoções e comportamentos. Por exemplo, ao querer realizar um prazer proibido, ou uma ação condenável, já nos vem a voz do superego (passando-se por ser nossa) desaconselhando e reprimindo nossa intenção. Daí segue a revolta, a frustração, o ímpeto ainda maior de realizar o desejo, e toda a subsequente cadeia de emoções associadas aos eventos seguintes.

Agora, imaginem a quantidade de conteúdos que internalizamos desde o tempo de bebês! Todos os modelos de conduta, moral, costumes, regras, condenações, ameaças, toda a cultura da raça, religião, grupos sociais — tudo está guardado em nós, muitas vezes em conflito com os impulsos internos de prazer de diversos tipos, sobretudo de natureza sexual.

Desejo e culpa, ousadia e medo, crueldade e bondade, vingança e perdão, selvageria e gentileza — tudo isso se mistura e pronto: está criado nosso eu.

Criado em cima de onde? da consciência primeva com a qual surge a vida, fonte da percepção anterior ao verbo, espaço onde ocorre toda a manifestação, e que é completamente esquecido e ignorado, como se não fosse a base de tudo.

Agora vejamos como um genial poeta da natureza reage às coisas do mundo, em estado de inocência e total liberdade dos conteúdos adquiridos e internalizados via pensamento:

 



Arquivo Pessoa - fonte: http://arquivopessoa.net/textos/1463
O meu olhar é nítido como um girassol (Alberto Caeiro - 8-3-1914)

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento
é aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...


Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...


Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...
---------------------------------------------------------------


Amigos, vejam que maravilha:

Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...


Já pensaram nisso? é pura inocência; é o estado primevo se expondo ao mundo; é o estado de Pura Consciência que perdemos ao erigir, sobre ele, o edifício de conceitos, opiniões radicais, crenças e ideologias, tudo em conflito com nossas tendências inatas de desejo de prazer, dominar sobre os outros, desfrutar do bem e fugir do mal — ou seja, o espaço onde erigimos nosso "eu" que não pode saber o que é inocência, pois é a negação do espaço de não premeditação, de eterno AGORA onde ele mesmo tem suas raízes.
E mais:

Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...


Quando se diz algo como "estar no aqui e agora, perceber o momento presente", nos parece um esforço, não é?

Isso porque a mente é comandada por um "eu" que se supõe ele próprio a fonte de percepção, mas está inteiramente subordinado às imagens do mundo e ao processo de pensamento, sempre procurando realizar objetivos, necessidades, desejos e ambições, e como um bumerangue vai ao mundo, urde suas estratégias e depois volta ao "eu" com suas conclusões, as quais, invariavelmente, apontam para trabalhos, expectativas e ansiedades. Não tem descanso.

 



Pensem nisso:

Aquilo que em nós se revolta contra algo, e aquilo que teme o amanhã e o sofrimento é estado de ego.

Aquilo que se agarra "a" e se identifica "com" conteúdos, ideais e valores próprios é o estado de ego.

Enfim, aquilo em nós, que é uma mistura de desejos, temores, conflitos e condicionamentos imersos na consciência, mas que sente possuir identidade própria, pessoal — isso é a consciência de ego. Esta porém, quando finalmente toma conhecimento da onipresença do sofrimento, sente que deve procurar atingir estados mais elevados, livres de seu próprio tormento interior, e começa a busca religiosa.

Mas o "eu" nunca percebe nem aceita que o terreno onde ele surgiu é a fonte da paz que tanto procura:

A base de tudo,

Aquilo que percebe,

Aquilo que é consciente,

Aquilo que conhece,

o Espírito, que é a Consciência Pura, a Consciência Cósmica que é origem do universo, e deixou uma fagulha de Si em cada um de nós, e é passível de ser vivenciado conscientemente sem indução via substâncias externas,
pois nesse caso quem é aquele que as utiliza, senão o estado de ego, querendo facilmente chegar a um estado mais elevado, que sua falsa identidade não permite, e dissolvendo-a artificialmente por um breve período?

A semente da Consciência Pura em nós encontra-se recoberta por nossas opiniões, certezas e dúvidas, desejos e temores, crenças e ideologias, e muita pretensão e vaidade; tudo isso também caracteriza o estado de ego, que Jesus chamou de "Príncipe deste mundo".

E tudo isso é atividade do pensamento, nossa autoridade interior e característica maior de nosso "eu", o qual é a própria consciência pura sobreposta por desejos, temores e aspirações - os quais são erroneamente aceitos como nossa identidade.

Assim, quando alguém diz: eu gosto, eu odeio, eu quero, eu não quero, vou fazer, não vou fazer, ele está falando a partir "DAQUILO QUE É" (na feliz expressão de J. Krishnamurti) que está a se expressar de acordo com os conteúdos e noções aprendidas em que consistem os condicionamentos da mente.


Voltar